Debate político esquenta, mas engajamento não cresce

As eleições deste ano, sobretudo no segundo turno, mobilizaram a população em torno das discussões políticas e dos rumos que os brasileiros desejam para o país. Os debates, não só entre os candidatos à Presidência da República, mas também entre os eleitores, foram e continuam sendo acalorados.
Mas será que a participação do cidadão na política se manterá efetiva fora do período eleitoral? A frase “eu não gosto de política” não é rara na boca de muitos brasileiros. Para o doutor em ciência política e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Paulo Roberto Figueira, o “afastamento” das pessoas da política não é um problema só do Brasil.
“No mundo inteiro você tem um processo, que foi se avolumando nos últimos tempos, de um certo afastamento da participação cotidiana da política. Na Inglaterra, por exemplo, nos últimos anos, caiu o número de filiados a partidos. Nos mais diversos países aumentou a percepção negativa das instituições politicas, não é um problema brasileiro, é mundial”, diz o professor.

No Brasil, este ano, o número de novos filiados a partidos políticos cresceu muito menos do que foi registrado em anos eleitorais anteriores. Enquanto as eleições de 2008, 2010 e 2012 motivaram, cada uma, mais de um milhão de eleitores a se filiarem, este ano foram verificadas pouco menos de 180 mil filiações partidárias, segundo dados do TSE.
É o menor crescimento do número de filiados em um período pré-eleitoral desde 2006, ano em que o total de membros de partidos no Brasil diminuiu. O crescimento percentual de filiados entre 2013 e 2014 (1,19%) foi menor do que o crescimento do número de eleitores no mesmo período (1,32%), algo que também não ocorria desde 2006.
Depois de sete anos crescendo, a parcela de eleitores registrados no Brasil que integram algum partido político caiu pela primeira vez. Atualmente, 15,3 milhões de brasileiros, em um universo de 142,8 milhões de eleitores, possuem carteirinha de partido. Isso equivale a 10,7% do eleitorado.
Segundo Paulo Roberto Figueira, este quadro de “afastamento” da política nacional exige cada vez mais que as instâncias de representação política estabeleçam pontes, canais de diálogo com a sociedade. “Quanto menos se faz isso mais se aprofunda o fosso entre a sociedade e as instituições que deveriam representa-la”, diz.
Outro fator que influi no afastamento das pessoas do debate político é o personalismo, característico do nosso sistema eleitoral. “Se tivéssemos a política mais focada em ideias, politicas públicas, claramente aumentaria as chances de ter um debate mais qualificado, inclusive de cobrança sobre os gestores. Quando tudo passa a operar em termos de fulano ou beltrano isso não produz um salto de reflexão sobre politicas públicas e seus efeitos”.
Redes sociais aumentaram canais de posicionamento
A avaliação da participação ou não das pessoas na política depende do ponto de vista considerado, acredita a cientista política, coordenadora do Observatório das Eleições da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Regina Helena Alves. “Tem algum tempo que a gente pode dizer que as pessoas se afastaram um pouco da política, mas temos que pensar em qual política estamos falando. Temos visto as pessoas se afastarem da política partidária, institucionalizada, mas há várias possibilidades de entender o que é política”, afirma a professora.
Ela lembra que existe uma “micropolítica”, na qual atuamos cotidianamente e que geralmente é desconsiderada neste debate. “É preciso compreender que as coisas não brotam do nada, as pessoas estão envolvidas com várias questões, que elas muitas vezes não têm a ideia de que o que estão fazendo é política. Acho que tem mais a ver com isso, do que efetivamente o brasileiro não gostar de política”, defende.
“Fazemos política o tempo todo, quando discutimos o projeto pedagógico da escola do filho, a construção ou não de mais prédios na cidade, a melhor forma para o uso da pracinha do bairro, quando reclamamos no supermercado de um produto vencido, tudo isso é política. O brasileiro está assumindo o lugar de cidadão de direitos, isso pode nem sempre se traduzir em política partidária, eleitoral, mas desde o ano passado, as pessoas estão indo às ruas, participando”, comenta, lembrando as jornadas de junho de 2013, que levaram milhares de pessoas a manifestarem por melhorias nos serviços públicos e maior participação popular nas decisões de governo.
Marco
Regina também acredita que as eleições deste ano foram um marco, justamente pela participação popular. “Ficou mais claro aquilo que pensamos de forma diferente sobre diversas questões e os rumos para o país. Houve uma ampliação do debate público, que sempre existiu. Mas antes o embate acirrado de ideias ficava debaixo do tapete e agora veio à tona. Isso é muito bom, no sentido de que se sabe a posição das pessoas sobre os diversos temas, aquilo de que elas não abrem mão. Fica muito claro que a democracia é um conflito, não é um consenso”, diz.
Internet
Ela avalia que a internet e todas as possibilidades de comunicação que ela abre contribui para essa amplificação das discussões políticas. “O que mudou foi a forma como as pessoas se informam sobre a política, antes era apenas pelos jornais, televisão e rádio, agora tem a internet, onde é possível o contraditório. As pessoas podem emitir uma opinião na hora, alcançando um número maior de pessoas conectadas. Isso ampliou o espaço de debate”, diz.
Segundo a professora, tudo isso faz com que os indivíduos se sintam mais reconhecidos como interlocutores, capazes de atuar para além do voto. “Isso (a internet) está mudando e ampliando as capacidades que temos”, complementa.
Ainda, de acordo com a especialista, a partir do eco destas eleições, com todas as possibilidades de acompanhamento da política nacional, as pessoas estarão mais atentas aos atos dos políticos brasileiros.
“O povo vai fiscalizar mais seus candidatos, isso para todo mundo, não só a classe media ou pessoas com mais escolaridade. Todos querem, podem e estão mais ativos”, conclui.
Instituições precisam modernizar mecanismos
O deputado André Quintão, presidente da Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, acredita que existe disposição das pessoas para participarem e discutirem política, mas de formas não convencionais. “Há um envelhecimento das estruturas e mecanismos tradicionais de participação política. Acredito que os próprios parlamentos têm se distanciado da população. As experiencias de participação no executivo são tímidas e partidos e sindicatos não têm sido muito atrativos”, comenta. Para ele, as instituições politicas deveriam criar mecanismos mais modernos, por exemplo, absorver em processos decisórios a opinião das pessoas pelas redes sociais, possibilitando a expressão política de pessoas que não necessariamente têm filiação partidária. “Temos ainda que vincular a participação a resultados para sociedade, ai as pessoas se sentem estimuladas”, enfatiza.
Debate político aumentou em 2014, mas filiação partidária diminuiu

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